Educar crianças ou adultos para o trânsito?

Sempre que um problema torna-se suficientemente grave como, por exemplo, o do trânsito brasileiro atual, surgem duas tendências: a primeira vem de um grupo enorme, mas pouco ou nada influente, que brada em alto e bom som que “alguém precisa fazer alguma coisa”, que “este Governo não faz nada”, que “trata-se de um caso de polícia”, e por aí vai; a segunda vem de um outro grupo, pequeno mas influente, por sua vez composto de dois tipos distintos de pessoas: de um lado, as que falam que saberiam como resolver os problemas mas não têm autoridade para fazer algo e, de outro, as que foram investidas da autoridade necessária para fazer algo mas não conseguem resolver os problemas, por razões as mais diversas, como falta de apoio dos escalões superiores, falta de verbas, falta de iniciativa própria, medo de errar e comprometer a carreira pública, quando não por pura ignorância ou simples pusilanimidade.

Concordem as autoridades ou não, o trânsito brasileiro matou perto de 1.000.000 de pessoas nos últimos 20 anos! Além disso, perto de 7 a 8 milhões de pessoas ficaram feridas nos acidentes, sendo alarmante a quantidade de incapacitados permanentes que deles resultou. O Brasil deste cenário, entretanto, é o mesmo capaz de demonstrar uma imensa dor coletiva quando um acidente aéreo mata 150 ou 200 pessoas… É também capaz de, surpreendentemente, montar a cada ano uma operação complexa com dezenas de milhares de postos de vacinação para manter longe a paralisia infantil, que há muitos anos não produz uma única vítima em todo o Território Nacional… É ainda o país que distribui gratuitamente todos os remédios para controle da AIDS e é tido como exemplo para o mundo inteiro… Por tudo isso, não há como fugir da pergunta: QUE FAZER PARA TORNAR O TRÂNSITO BRASILEIRO MENOS VIOLENTO E MAIS HUMANO?

É a partir daqui que se pode entender melhor cada uma das alternativas citadas: as pessoas que bradam por uma solução do Governo continuam bradando como sempre, as que não têm autoridade continuam sem ela como sempre e as que a têm elaboram planos, campanhas, projetos, fiscalizações, “blitze”, seminários, operações especiais, novas leis, novas multas e novas penalidades. De certo modo, isso também é o que sempre tem sido feito e, a bem da verdade, logo depois abandonado por falta de rigor e fiscalização. Como mexer com o trânsito propriamente dito parece não adiantar, restaria modificar a pergunta feita acima para “QUE FAZER PARA TORNAR O CONDUTOR BRASILEIRO MENOS VIOLENTO E MAIS HUMANO?”

Os legisladores do Congresso Nacional deram, já em 1998, uma resposta a esta pergunta: inovaram, ao aprovar o novo CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO (CTB), incluindo a obrigatoriedade da Educação para o Trânsito em todas as escolas dos ciclos fundamental, médio e superior. O CTB brasileiro é considerado um dos melhores do mundo. Infelizmente, passaram-se quase 10 anos da promulgação do CTB e a Educação para o Trânsito ainda não “pegou”: faltam, a um mesmo tempo, regulamentações, verbas, interesse, espaço curricular e, segundo o DENATRAN, não há projetos para analisar e aprovar. Na própria Sociedade Brasileira aparecem agora os que criticam a idéia de que a Educação para o Trânsito seja ministrada para os bebês do Fundamental, quando na verdade são os motoristas jovens que, por imprudência e alcoolismo, estão causando a maior parte dos acidentes. Como querer tirar a razão deles se, ao analisarmos também o adulto alfabetizado atual, podemos verificar que foi educado, quando o foi, pela lei da busca do resultado imediato, do “tirar nota boa na prova”, do “estudar para passar de ano”, do “pagar para tirar a Carteira Nacional de Habilitação”, do “menino, comporte-se senão eu conto pro teu pai quando ele chegar”, do “o negócio é levar vantagem, certo?”, do “vou arranjar um trampo no Serviço Público para me encostar o resto da vida?” ou “vou agüentar a Faculdade até o fim porque preciso do canudo”!!!

Nem podemos nos indignar quando ouvimos do próprio Ministério da Educação que mais de 70% dos adultos brasileiros alfabetizados são incapazes de interpretar um texto que eles mesmos acabam de ler! Nem podemos nos surpreender ao ouvir de tantos professores que, por vezes, têm medo de dar aulas por causa da violência dos alunos! Nós, os pais e avós de hoje, somos os únicos culpados por tudo o que está ocorrendo. Existe alguma atenuante? Claro que sim: nós não demos a educação correta aos nossos filhos porque também não a tivemos dos nossos pais. Que fazer? Mudemos o Ciclo Fundamental, para que todas as crianças brasileiras, nos primeiros 4 anos, apenas estudem as 4 operações, escrever, ler e INTERPRETAR TEXTOS. Fora isso, Educação para o Trânsito, pois a pobreza as força a ir A PÉ para as escolas e elas precisam ter percepção do risco que correm. E educação física. Nos anos seguintes, aprenderão qualquer coisa, pois saberão INTERPRETAR. Quando “tirarem” a CNH, serão filhos, estudantes, cidadãos e condutores bem diferentes que nós, os atuais adultos já totalmente incorrigíveis.
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