Isso só acontece no Brasil? Mentira!

Quando vemos a quantidade de acidentes, mortos e feridos no trânsito do Brasil, somos levados a crer que só aqui uma coisa destas pode acontecer… Onde já se viu um volume de 50.000 mortos por ano em um país de menos de 200 milhões de habitantes com 40 milhões de veículos, quando a União Européia tem muito mais que o dobro disso de habitantes e de veículos e apresenta “apenas” 50.000 mortos ao ano? Não seria o caso de, mais uma vez, tentarmos “levar vantagem” dizendo que aqui, mesmo sem a educação para o trânsito nas escolas, morre a mesmíssima quantidade de pessoas ao ano que lá, onde tudo já foi feito? Pois na semana que passou estivemos com algumas dezenas de especialistas em um Fórum de Segurança e Educação para o Trânsito. Em parte, repetiu-se a modorra habitual provocada por doutos especialistas que, ao invés de provocar o debate para a busca de soluções dos problemas do trânsito brasileiro, utilizam o espaço que lhes é dado pelos organizadores para deitar sabença e dar aulas.

Algumas tentativas de debates, com moderadores e tudo, jamais passaram de ameaças, pois os que deveriam provocá-los se deixaram levar pela tentação do auto-elogio às próprias iniciativas, muitas já conhecidas de fóruns anteriores! Felizmente, desta vez alguns arautos de novos tempos apareceram e deram seus recados, entre os quais alguns especialistas estrangeiros convidados pelos organizadores. Foi na apresentação de um deles que os participantes tiveram os melhores momentos do fórum: a situação do trânsito na América Latina, ou seja, tudo o que existe ao sul dos Estados Unidos, só é relativamente boa no Brasil e no Chile, que têm leis boas e códigos nacionais de trânsito bem estruturados. A partir do México, todos os países americanos de língua espanhola, exceto o Chile, usam leis de trânsito MUNICIPAIS!!!

Nestes países não existe um DENATRAN (Departamento Nacional de Trânsito), com jurisdição sobre todo o território nacional. O que existem são delegacias de trânsito em cada município. É por este motivo que, por exemplo, alguns caminhoneiros brasileiros efetuando viagens em países vizinhos foram “mordidos” 16 vezes na mesma viagem: a cada novo município cruzado aparecia um patrulheiro, inventava uma infração e cobrava “por fora” para não lavrar a multa… Logo que o caminhão voltava à estrada, o “cobrador” anterior passava um rádio para o município seguinte e logo aparecia um novo bolso vazio para rechear…

Na Argentina, por exemplo, cada candidato a condutor deveria freqüentar um centro de formação de condutores, uma “auto-escuela”, para fazer um curso antes de receber a licença para conduzir. Na prática, se quiser, o aluno pode pagar e resolver o assunto sem aula, sem estudar, sem mais nada: a licença rapidinho estará em suas mãos. Aí chega o verão e, logo após os festejos de Natal, 80 a 100 mil automóveis argentinos, uruguaios, chilenos e paraguaios vêm ao Brasil em busca das nossas praias e do nosso calor. Que fazem eles? Reclamam que corremos demais nas nossas estradas e os envolvemos em um sem-número de acidentes, enquanto eles mesmos cometem infrações que montam a mais de 30.000 multas emitidas (e não pagas) a cada ano, a ponto de ser montado um esquema especial pela Polícia brasileira para só deixar voltar para casa os infratores que pagarem suas multas ao Brasil antes de cruzar a divisa.

Junte a isto o fato, levantado pelo Ministério de Educação nas maiores cidades do Brasil, de que mais de 70% dos brasileiros adultos alfabetizados são capazes de ler, mas não compreendem o que lêem e teremos o quadro completo: brasileiros e visitantes se matando nas estradas à procura de férias e diversão. Ao invés de discutir até que fique definitivamente provado quem são os culpados, me parece melhor juntar esforços e criar uma força tarefa internacional para unificar as leis e as sinalizações, de forma a que em seus países ou a passeio, todos conduzam seus veículos sob código único. Me disseram que isto levaria uns 10 anos. Se demorarmos mais um ano para começar, levará 11…

 Carlos Bruns

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