Papa Leão XIV alerta para concentração de poder e riscos da inteligência artificial

Papa Leão XIV az um apelo por uma espécie de “desarmamento da inteligência artificial" - Foto: Divulgação/Vatican Media


O papa Leão XIV lançou nesta segunda-feira (25), no Vaticano, sua primeira Carta Encíclica, intitulada Magnifica Humanitas (“Magnífica Humanidade”, em latim), com foco nos impactos da inteligência artificial (IA) sobre a sociedade.

O documento foi apresentado na Sala do Sínodo, em um evento que contou com a presença de cardeais e especialistas, entre eles o secretário de Estado da Santa Sé, Pietro Parolin, o cardeal Víctor Manuel Fernández e o cardeal Michael Czerny. Também participaram as teólogas Anna Rowlands e Leocadie Lushombo, além do pesquisador Christopher Olah, cofundador da empresa de IA Anthropic.

Com 130 páginas, a encíclica foi divulgada no 382º dia de pontificado e marca o primeiro grande posicionamento formal de Leão XIV sobre tecnologia. O texto defende a centralidade da dignidade humana na era digital e alerta para riscos como desumanização, concentração de poder econômico e aumento das desigualdades sociais.

O papa também faz um apelo por uma espécie de “desarmamento da inteligência artificial”, criticando o uso da tecnologia em disputas econômicas e geopolíticas baseadas na corrida por dados e algoritmos mais eficientes. Segundo o documento, a IA não pode ser considerada moralmente neutra e deve ser guiada por critérios éticos e de justiça social.

A encíclica também aborda a responsabilidade dos desenvolvedores de tecnologia, afirmando que as escolhas no desenvolvimento de sistemas de IA refletem visões de mundo e têm impacto direto sobre a sociedade.

Em um dos trechos mais marcantes, Leão XIV pede à Igreja e à sociedade que evitem a perda da centralidade humana diante da tecnologia e reforça que a plenitude da vida não pode ser reduzida à lógica de consumo ou eficiência.

O texto ainda faz referência à tradição da doutrina social da Igreja, iniciada com a encíclica Rerum Novarum, e reforça temas como bem comum, solidariedade, justiça social e dignidade humana como pilares para o debate sobre inteligência artificial.

Além das questões tecnológicas, o documento também trouxe um gesto de mea-culpa histórico: o papa pede perdão pelo atraso da Igreja na condenação da escravidão, reconhecendo o sofrimento causado ao longo da história.

Especialistas ouvidos destacam que o texto segue a tradição da Igreja de dialogar com os desafios de cada época, tratando a inteligência artificial não como ameaça em si, mas como ferramenta que exige regulação ética e responsabilidade social.

A encíclica também reforça a diferença entre inteligência humana e artificial, afirmando que a primeira envolve dimensões emocionais, afetivas e experiências de vida que não podem ser reproduzidas por máquinas.

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