Uma das grandes dificuldades ao se criar campanhas sobre a segurança no trânsito é conseguir passar, de forma não agressiva ou apelativa, a seriedade da situação. A agência carioca Camisa 10, em parceria com a ONG Trânsito Amigo, conseguiu, com uma ideia criativa e simples, mostrar a gravidade da violência no trânsito. A campanha, que foi consagrada em prêmios nacionais e internacionais, recentemente foi incluída num livro didático de língua portuguesa.
“Tudo começou com uma ideia do Luiz Eduardo Osório, diretor de arte, que apresentou a ideia, achamos muito boa”, explica Bruno Richter, diretor geral da agência. “Precisávamos de alguém para viabilizar essa ideia, e aí entramos em contato com a ONG Trânsito Amigo e com o fotógrafo Márcio Freitas”.
O resultado é uma campanha que mostra placas de carros retorcidas, estiradas na estrada, com um chão cheio de cacos de vidros, indicando um acidente. Na placa, nomes como Ana, Ruy e Eva, ao lado de uma data. “Nomes curtos de três letras, além das datas, mantêm o formato original de uma placa”, explica Richter. “Sem mexer na estrutura da placa, conseguimos passar essa ideia da perda”.
“Através da foto e de todo o entorno visual, nós juntamos elementos que fortalecem a ideia”, avalia Richter. “Se a placa não estivesse amassada, se estivesse em um carro ou em um chão limpo, não passaria essa ideia”.
Com apoio de gráficas e veículos de comunicação, a campanha foi divulgada de graça e deu destaque para a iniciativa e para a ONG. “Fizemos sem pretensões de remuneração financeira, com a consciência de que essas iniciativas vão proteger nossos filhos”, conta Richter. “Temos ciência de que morrem 60 mil pessoas por ano nessa guerra, é um número absurdo. Fizemos muita besteira no trânsito, quem sobreviveu, deu sorte”.
Nesta semana, mais uma surpresa: a campanha foi escolhida para integrar o livro didático Vozes do Mundo, da editora Saraiva, que destaca os elementos textuais e pictóricos da peça para construir o sentido. “Ficamos lisonjeados em participar do livro, é uma coisa educativa e uma outra forma de comunicação”, avalia Richter.
O passo seguinte foi uma segunda campanha, utilizando ainda o conceito das placas, mas abordando um outro aspecto muito importante da violência no trânsito. “Uma coisa que sempre incomodou o (Fernando) Diniz, criador do Trânsito Amigo, é que a legislação é muito branda com quem causa acidentes”, diz. “Por isso, na campanha seguinte, colocamos pessoas machucadas segurando as placas amassadas como se fossem identificações de suspeitos fichados pela polícia, indicando que elas causaram o acidente. O slogan escolhida foi `Matar no trânsito também é crime. Respeite as leis de trânsito. Proteja a vida`”.
“Produzimos um filme com esse conceito, tudo pela ideia e pela causa. Essa campanha foi veiculada em estradas, em várias paradas espalhadas pelo Brasil”, conta Richter.
A peça publicitária está gerando ainda mais frutos. “Temos tramitando há cerca de um ano com a prefeitura a ideia de um monumento em honra às vítimas do trânsito, já temos financiamento, um projeto, só precisamos de uma autorização e de um lugar para construí-lo”, conclui. “A legislação está ficando mais severa com quem causa os acidentes, estamos nessa luta para tentar ter um trânsito mais seguro”.
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