Brasil testa laboratório espacial que atinge 100 km de altitude e retorna de paraquedas

Novo modelo é testado na Barreira do Inferno, em Parnamirim. Foto: FAB/Divulgação


O Brasil está realizando, no Rio Grande do Norte, um teste histórico com uma plataforma científica que funciona como um “laboratório espacial” acoplado a um foguete. Batizada de Plataforma Suborbital de Microgravidade (PSM-R), a cápsula será levada a mais de 100 quilômetros de altitude, onde permanecerá por alguns minutos em condições de microgravidade para realizar experimentos, e depois retornará à Terra com ajuda de paraquedas, pousando no oceano para ser recuperada intacta pela equipe de resgate.

A operação, chamada Potiguar 2, mobiliza cerca de 160 profissionais da Força Aérea Brasileira (FAB) e da Agência Espacial Brasileira (AEB) no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Parnamirim, região metropolitana de Natal. Inaugurada em 1965, a base é a mais antiga da América do Sul e já participou de mais de 400 lançamentos. A janela de testes começou em 31 de agosto e vai até 19 de setembro, dependendo das condições de vento e mar.

O foguete usado no teste é o VS-30 V16, com nove metros de comprimento, equivalente a um prédio de três andares. Após cerca de 30 segundos de propulsão, ele segue em trajetória parabólica até atingir o ponto mais alto, próximo ou acima dos 100 km, limite internacionalmente reconhecido como início do espaço. Nesse ápice, a plataforma se desacopla, estabiliza e fica em microgravidade por entre 6 e 8 minutos, tempo suficiente para acionar os experimentos embarcados.

A microgravidade não significa ausência total de gravidade, mas uma condição em que sua influência é muito reduzida. Isso permite que fenômenos físicos, químicos e biológicos ocorram de maneira diferente da observada na superfície terrestre. Segundo especialistas, é possível obter cristais mais homogêneos de medicamentos, estudar novos materiais, processos de combustão e até avaliar como microrganismos e sementes se comportam fora da atmosfera, pesquisas com aplicações em farmácia, alimentação, agricultura e biotecnologia.

Entre os experimentos da missão estão amostras de bactérias usadas na agricultura, como Bradyrhizobium e Azospirillum brasilense, levadas em pequenos módulos equipados com biossensores e dosímetros de radiação. O objetivo é verificar como esses microrganismos resistem às condições extremas do voo espacial e se mantêm viáveis após o retorno. Os dados coletados serão comparados com controles mantidos em solo, inclusive com simulações de microgravidade feitas em laboratórios universitários, como os da Esalq-USP, em São Paulo.

O grande avanço desta missão, no entanto, não está apenas nos experimentos, mas no sistema de recuperação da plataforma. Em testes anteriores, como o realizado em 2022 a partir de Alcântara (MA), os dados eram transmitidos por telemetria, sem resgate físico das amostras. Agora, após os experimentos, a cápsula inicia queda livre, aciona primeiro um paraquedas-guia e depois o paraquedas principal, que freia a descida até o pouso suave no mar. Equipada com GPS e transmissor de rádio, a plataforma envia sua localização para um helicóptero da FAB, que faz o resgate. Se aprovada, a PSM-R poderá ser reutilizada até quatro vezes, reduzindo custos e ampliando o acesso de universidades e empresas a voos suborbitais
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