A derrocada do Ueno Bank deflagrou um terremoto político sem precedentes no Paraguai, culminando na renúncia do presidente do Banco Central do país, no impeachment e na prisão preventiva do ex-presidente Santiago Peña. O episódio, que afeta milhões de correntistas e comprometeu recursos da previdência pública, passou a ser comparado por analistas financeiros ao caso do Banco Master no Brasil, embora guarde proporções operacionais e políticas distintas.
A conexão direta do ex-mandatário com a instituição agravou a crise. Peña figurou como acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno até março de 2025. Paralelamente, o ex-presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo Spalding, havia comandado a instituição privada antes de assumir a autoridade monetária, levantando suspeitas de leniência na fiscalização do sistema.
Semelhanças e disparidades com o caso brasileiro
Especialistas em riscos geopolíticos e mercado financeiro apontam convergências claras entre o colapso do Ueno Bank e as investigações envolvendo o Banco Master no Brasil. Em ambos os cenários, identificou-se o crescimento acelerado lastreado em ativos de baixa liquidez, forte exposição de fundos previdenciários e contatos estreitos com a classe política.
Entretanto, analistas ressaltam que a diferença crucial reside na dimensão e no impacto social. Enquanto o Master representava cerca de 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro com foco em investimentos, o Ueno Bank acumulava US$ 3,75 bilhões em ativos, respondia por 9,1% dos depósitos paraguaios e somava 3 milhões de clientes, alcançando aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai. A liquidação da instituição paralisou pagamentos do dia a dia, gerando forte comoção e protestos populares.
O contexto político da queda de Peña
A escala do colapso bancário foi o estopim para a ruína política de Santiago Peña, mas o cenário de instabilidade já vinha se desenhando nos bastidores do governista Partido Colorado. O ex-presidente já enfrentava forte desgaste interno e fissuras com facções lideradas por antigos apadrinhados políticos, como o ex-presidente Horacio Cartes.
Com a perda de bases eleitorais estratégicas nas últimas eleições municipais e o risco de contaminação da legenda para os próximos pleitos presidenciais, o apoio a Peña ruiu no Congresso. A apuração de empréstimos irregulares e o bloqueio de cerca de US$ 850 milhões do Instituto de Previdência Social (IPS) inviabilizaram a permanência do governante, resultando em sua destituição e imediata ordem de custódia judicial.
