Rodrigo é um jovem caminhoneiro que ainda conta com o vigor da juventude para superar limitações que se acentuam apenas com o passar dos anos. Com seus 25 anos de idade e pouco mais de 4 anos de estrada, Rodrigo prefere realizar suas viagens à noite, pois acredita que o trajeto parece ser mais curto sob a escuridão e, além do mais, durante o dia, o trânsito caótico interfere diretamente em seu tempo de viagem. Mas mesmo com toda energia da juventude, o vigor de uma saúde em plena forma, Rodrigo é constantemente alertado pelos seus amigos de estrada dos perigos de se viajar á noite, principalmente quando se acomete o sono.
_ Rapaz! Cuidado, com o sono não se brinca! – afirmava um amigo.
_ Garoto! Quando o sono chega, você parece ver alucinações! Ele te engana! – dizia outro caminhoneiro.
_ Que nada! Eu agüento o tranco! Não tem essa de alucinação comigo! – sentenciava o jovem motorista.
Certo fim de tarde, parado em um posto de combustível e Restaurante, Rodrigo terminava sua refeição e se preparava para mais uma viagem noturna afim de entregar sua carga. Ele havia abusado da feijoada naquela refeição. Não havia como segurar a vontade perante um prato divinamente cheiroso e saboroso. Ainda assim, Rodrigo acreditava que abusar apenas uma vez, não seria sinal de perigo para si. Após efetuar a higiene pessoal, Rodrigo encontrou um grupo de caminhoneiros que dialogavam entre si sobre o destino trágico de um colega de boléia, vítima de um acidente quando atropelou um boi na estrada. Enquanto se preparava para viajar, ouvia os demais comentarem sobre como ocorreu o sinistro. E como um acidente envolvendo um animal pode ser danoso tanto para o motorista como para o veículo.
Ao terminar os preparativos para a viagem, Rodrigo se dirigiu aos demais amigos e despediu-se de todos. Indagado pelos demais, apenas dizia que continuaria sua viagem. Rodrigo foi alertado por todos os presentes do perigo de se viajar á noite, e recomendado que se surgisse o sono, parasse o caminhão o mais rápido possível em um posto. O jovem motorista dava pouca atenção aos conselhos e, após montar em seu veículo, iniciou marcha em mais uma viagem noturna, afim de ganhar tempo na entrega da carga. Junto de si guardava seu arsenal de combate ao sono que ia desde chicletes, pastilhas, café fresco até coca-cola. O jovem era avesso ao consumo de drogas ou remédios de combate ou inibição de sono. Preferia a forma convencional de guerra contra a sonolência.
Após rodar mais de cem kilometros, Rodrigo notou que já havia passado por três postos de apoio e o sono ainda não tinha dado o ar da graça, apesar do jantar pesado que havia consumido. Sabia que teria que enfrentar agora um trecho de quase 300 kilometros sem qualquer tipo de posto de apoio. Era a senha para a chegada do Pinóquio, como era chamado o sono, pelos motoristas. Rodrigo iniciou então seu trajeto, onde inicialmente não sentia qualquer tipo de sonolência a bordo de seu bruto. Haviam passados quase 70 kilometros desde o ultimo posto e Rodrigo começava a sentir a chegada do cansaço. Aumentou o som de seu rádio e abriu um pouco a janela do caminhão, mas logo depois acabou por fechar, pois estava muito frio no lado de fora. Então lançou mão de um chiclete e dois, que depois viraram três. Enquanto dirigia, Rodrigo começava a mergulhar dentro de si mesmo, lembrando de tudo que ocorreu no ultimo dia, ao som da musica sertaneja que embalava o ritmo do motor do caminhão.
Rodrigo se lembrou da conversa que os colegas estavam travando, antes de sua partida. Relembrou do caminhoneiro que morreu vítima de um boi na estrada. Sua mente divagava sobre o ocorrido. Mergulhado em si, enchia de certeza que isso não ocorreria com ele. “Um boi… nossa, dá prá ver um bicho deste de longe… comigo isso não vai acontecer” – imaginava o jovem caminhoneiro. Em meio á certeza que tal fato não aconteceria com ele, Rodrigo buscava forças para se manter atento á estrada. Certo de que não atropelaria ninguém, Rodrigo pareceu perceber algo à frente. Parecia realmente um animal, de cor marrom, que encontrava parado bem à sua frente. Assustado, Rodrigo pisou bruscamente no freio e acionou sua buzina com toda energia. Mas a distância com o vulto não era suficiente para parar um veículo pesado. Instintivamente, Rodrigo baixou a cabeça e esperou o impacto. Mas nada aconteceu. Imediatamente despertou do transe. Assustado, o jovem caminhoneiro notou ter sido vítima da sonolência e de uma alucinação.
_Caracas! Nossa, escapei de uma agora! – dizia em voz alta para si mesmo – ainda bem que não foi nada!
Após o acontecido, Rodrigo continuou a viagem, agora mais acordado do que nunca, pois o susto quase fez seu coração saltar da boca. Em virtude da total desolação do local, sem qualquer tipo de habitação às margens da estrada, Rodrigo achou melhor tocar adiante. Tomou um copo grande de café e colocou o som de seu rádio no ultimo volume. E desta forma prosseguiu sua viagem. Após vencer mais 120 kilometros, Rodrigo se viu sem café e com apenas mais dois chicletes e a coca-cola. Lançando mão da latinha de coca, tomou o refrigerante todo e com ele um recobrou um pouco mais de ânimo para seguir sua viagem. Logo se viu mergulhado novamente em pensamentos do que ocorreu contigo durante o dia.
Imaginava consigo o susto que havia passado há pouco e na ilusão que o sono causou em si mesmo. Rodrigo mais uma vez, se lembrava da conversa com seus amigos e no acidente do caminhoneiro com um boi. Parecia ficar novamente entorpecido e divagava sobre sua percepção, mesmo estando em sonolência para perceber que algo poderia estar errado no seu caminho. O som alto da musica sertaneja de seu CD pirata comprado nas barraquinhas do mercado de sua cidade embalava mais uma vez o caminhoneiro, que acreditava estar atento ao que o cercava. “Imagina… um boi marrom… só faltava essa!” – pensava consigo mesmo. E adiante, por mais uma vez, Rodrigo percebeu algo na estrada, de cor parda. Ao abrir seus olhos percebeu que se aproximava rapidamente de um animal parecido com outro boi. Imediatamente pisou no freio e mudou a trajetória de seu veículo, para a pista contrária, pois felizmente ninguém seguia na outra faixa. Ao passar mais lentamente pelo local, notou que mais uma vez foi traído pelo sono.
Recobrado os sentidos por mais um susto, Rodrigo parecia não acreditar que um prato caprichado de feijoada faria tanto estrago em sua percepção. “Eu hein… nossa, acho que fiquei impressionado com a história dos colegas” – divagava a respeito de tudo que lhe ocorreu. Suas pernas tremiam de inquietação pela ilusão causada por seu cérebro. Rodrigo tentava de alguma forma entender o que estava ocorrendo contigo. Relembrava que o primeiro animal apresentava a cor marrom e o segundo agora de cor parda. Um leve sorriso estampava na face do caminhoneiro, achando graça da ilusão imposta por sua imaginação. Abrindo sua ultima embalagem, passou a mascar mais um chiclete.
Prosseguindo com a viagem, logo a atenção gerada pelo susto foi dando passagem mais uma vez ao entorpecimento de um trajeto monótono, sem muitas opções de luzes de moradias no horizonte que pudesse distrair um pouco a Rodrigo. Não contando mais com chicletes, sem café e com o fim da coca-cola, o caminhoneiro começava a preocupar por mais uma armadilha que o sono pudesse pregar. Já vencendo os quase 300 kilometros sem qualquer ponto de apoio, Rodrigo sabia que logo poderia parar um pouco, mover o corpo e espantar o sono que insistia em acometê-lo. As primeiras moradias no horizonte denunciavam que sua viagem atingia uma região mais urbanizada, sem o perigo de encontrar com um animal pela estrada. Mas ainda assim, Rodrigo lutava para não ser vencido pelo sono, encontrando as parcas energias para manter atenção à frente. Aos poucos, mais luzes de moradias despontavam à margens da rodovia e a primeira placa informava que o posto de apoio para Rodrigo estava há 15 kilometros.
Bastante cansado e quase vencido pelo sono, Rodrigo encontrava um restinho de força para chegar ao posto. Inebriado, imaginava encontrar um bom copo de café fresco, chicletes e coca-cola. Temia não agüentar o final de trajeto. Rodrigo divagava sobre as cores dos animais que imaginou anteriormente. “Agora só falta trombar com uma vaca colorida e cheia de pintas” – se divertia consigo mesmo. Faltando vencer poucos metros para chegar ao posto, Rodrigo mais uma vez avistou algo à sua frente, e já diminuindo a velocidade, o jovem caminhoneiro avistou um animal parecido com uma vaca. O animal parecia ter manchas brancas em todo corpo. “Não acredito… só faltava essa…uma vaca colorida” – pensou consigo. Rodrigo ignorou sua percepção e manteve a marcha em direção à sua ilusão, pois já acreditava que havia se impressionado com a história do caminhoneiro, e por isso havia sonhado com estes animais.
Despreocupadamente continuou sua trajetória e de repente Rodrigo assustou-se com um impacto violento na frente de seu caminhão. A parada brusca gerada pelo impacto jogou Rodrigo contra o volante, sua cabeça chocou-se contra o pára-brisa e, em um relance, ele viu seu caminhão desgovernar-se e chocar-se contra um cercado de arame ás margens da via, há 900 metros do posto de apoio. Recobrado do susto e sentindo uma dor de cabeça Rodrigo notou que um calombo havia surgido na testa, em virtude do impacto. Logo após, desceu de seu veículo e caminhou em direção á estrada para verificar no que realmente seu veículo colidiu. Para seu espanto, Rodrigo observou estirada ao chão, uma vaca de cor negra com manchas brancas em seu corpo. O animal parecia estar morto devido ao impacto com o caminhão. Ele não acreditava no que via.
Rodrigo virou-se para seu veículo e notou que o impacto com a vaca havia destruído parcialmente a frente do caminhão e danificado a suspensão dianteira. Pensou consigo em que dos males, o menor, pois estava em baixa velocidade. Se tivesse mais rápido, com certeza estaria encrencado. Um misto de sensações tomou conta de Rodrigo. As primeiras lágrimas brotaram de seus olhos. E com os olhos marejados começou a rir do ocorrido. Para Rodrigo, ele foi traído por sua própria percepção. Quando tinha que acreditar, não acreditou. A ele restava agora arcar com o prejuízo. E nunca duvidar das armadilhas do sono, ainda mais depois de comer um prato caprichado de feijoada à noite.
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