A diabetes tipo 2, historicamente associada ao envelhecimento, tem sido diagnosticada cada vez mais cedo. O aumento dos casos entre adolescentes e jovens adultos acende um alerta para médicos, que relacionam esse cenário ao crescimento da obesidade, ao sedentarismo, à alimentação baseada em produtos ultraprocessados, ao estresse e à privação de sono.
Dados do Ministério da Saúde mostram que o número de adultos diagnosticados com diabetes aumentou 135% nos últimos 18 anos. No mesmo período, os registros da doença entre jovens adultos cresceram 56%, indicando uma mudança significativa no perfil dos pacientes.
O Brasil ocupa atualmente a sexta posição entre os países com maior número de pessoas vivendo com diabetes. Estima-se que cerca de 16,8 milhões de brasileiros convivam com a doença, sendo a diabetes tipo 2 responsável por aproximadamente 90% a 95% dos casos. A projeção é que esse contingente ultrapasse 23 milhões de adultos até 2045.
Para o endocrinologista Pedro Henrique Dantas, o avanço da doença entre pessoas mais jovens está diretamente ligado à combinação de predisposição genética e mudanças no estilo de vida.
"O histórico familiar influencia, mas fatores como excesso de peso, alimentação inadequada, sedentarismo, consumo de álcool e noites mal dormidas também desempenham um papel importante. Todos esses elementos favorecem o desenvolvimento da resistência à insulina, principal característica da diabetes tipo 2", explica.
Segundo o especialista, a epidemia de obesidade registrada nos últimos anos tem antecipado o aparecimento da doença. O maior acesso a alimentos ricos em calorias, o aumento do tempo em frente às telas, a redução da prática de atividades físicas e a piora da qualidade do sono contribuem para esse cenário.
Além dos adultos jovens, médicos observam um crescimento dos diagnósticos entre adolescentes. Esse novo perfil tem levado, inclusive, à ampliação de estudos sobre medicamentos utilizados no tratamento da diabetes tipo 2 para pacientes a partir dos 12 anos.
Apesar do avanço da doença, especialistas destacam que a prevenção continua sendo a principal estratégia para reduzir os casos. Manter o peso adequado, praticar pelo menos 150 minutos de atividade física por semana, reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e adotar uma alimentação rica em frutas, verduras e fibras ajudam a diminuir significativamente o risco de desenvolver diabetes.
Outro desafio é que a doença costuma evoluir de forma silenciosa. Em muitos casos, os sintomas aparecem apenas quando a glicemia já está bastante elevada. Entre os sinais mais comuns estão sede excessiva, aumento da vontade de urinar, cansaço frequente, visão embaçada e perda de peso sem causa aparente.
Pedro Henrique ressalta que o diagnóstico precoce é fundamental para evitar complicações graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência renal, perda da visão e amputações. Quanto mais cedo o tratamento é iniciado e o controle da glicemia é alcançado, menores são os riscos de consequências a longo prazo.
As diretrizes mais recentes para o rastreamento da doença recomendam a realização de exames em todas as pessoas com 35 anos ou mais, além de indivíduos de qualquer idade que apresentem fatores de risco, como obesidade, hipertensão, histórico familiar de diabetes, sedentarismo, pré-diabetes, doenças cardiovasculares, apneia do sono ou diabetes gestacional.
Embora a diabetes ainda não tenha cura, o acompanhamento médico, a alimentação equilibrada, a prática regular de exercícios e o uso correto da medicação permitem controlar a doença e proporcionar melhor qualidade de vida aos pacientes.